[Diários do Tradutor] A CAT Tool e os Dragões, parte 3

Ok, já faz mais de três meses desde a última parte do artigo sobre CAT Tools e Dragões, mas a vida de tradutor freelancer é bem atribulada 🙂 Entre livros, textos acadêmicos, uma oficina sobre CATs na livraria SBS da Vila Mariana e uma viagem à Bienal do Livro de São Paulo para prospectar novos clientes, esses últimos meses foram bem movimentadas por aqui. Mesmo assim, a saga continua! Ah, e se você chegou direto neste artigo, o terceiro da série, aproveite para dar uma lida na parte 1 (clicando aqui) ou na parte 2 (clicando aqui) e saber de onde vieram os dragões que dão o nome a esta série de artigos.

Vamos lá!

Depois de converter e importar o arquivo original, e depois de converter e inserir o glossário na CAT Tool (lembrando: estou usando o Smartcat para este projeto), eu comecei a trabalhar na tradução diretamente na ferramenta — e também a perceber algumas particularidades do trabalho , em vez de fazer a tradução do jeito tradicional, “na unha”, com o Word.

Uma das coisas que me dei conta depois de completar alguns segmentos, especialmente aqueles que continham diálogos, é que as CAT Tools são ferramentas que buscam deixar os textos o mais próximos possível do original, especialmente nos quesitos formaformatação. E isso pode resultar em alguns problemas durante o trabalho com literatura, especialmente quando a padronização da língua de chegada é diferente do original. O caso onde isso apareceu de maneira mais visível foi justamente na estrutura dos diálogos: na literatura americana, o formato padrão dita que as frases enunciadas pelos personagens no discurso direto sejam colocadas entre aspas. No português, por opção das editoras, os diálogos sempre vêm entre travessões — que ainda podem variar entre travessões longos, padrão adotado pela maioria das editoras brasileiras, ou pelo travessão médio, preferido por umas e outras. No caso desta obra específica, o cliente pede que sejam usados travessões médios.

Outros trechos onde seria necessário usar uma formatação totalmente diferente do original foi nas sentenças que explicitam os pensamentos de cada personagem. No livro original, a padronização dos pensamentos se dá pelo uso do itálico; o cliente brasileiro, por sua vez, pede que todos os pensamentos sejam colocados entre aspas e que o texto fique redondo (sem itálico).

Resultado: O Smartcat começou a encher o meu trabalho de alertas de erros de QA (Quality Assurance) — afinal, eu estava me atrevendo a alterar os sinais iniciais e finais de cada um dos segmentos. E foi aí que tive que fazer uma pequena pausa no trabalho tradutório para ter uma noção melhor de como trabalhar com essa ferramenta-dentro-da-ferramenta.

O QA é a função responsável por garantir a uniformidade de sinais, espaçamentos, tags e outras características que existem entre o texto original e a tradução. E o controle de QA serve exatamente para garantir que isso aconteça. Veja alguns exemplos:

 

 

No caso da tradução de literatura, nem sempre é necessário manter uma rigidez tão grande. Por isso, depois de estudar algumas das opções e ajustar algumas (ou várias… ha ha ha) das opções da checagem de Quality Assurance, já foi possível trabalhar de maneira mais fluida e sem tantos alertas de QA pipocando na minha tela a cada segmento confirmado.

Mesmo assim, a questão do uso de travessões continuou a ser um problema. Não existe uma tecla para inserir diretamente um travessão no texto, seja ele médio ou longo. Por outro lado, é possível utilizar alguns atalhos para conseguir fazer isso. Vejamos algumas alternativas.

É possível inserir travessões no texto usando algumas combinações com a tecla ALT e o teclado numérico:

  • Travessão médio: ALT 0150
  • Travessão longo: ALT 0151

E uma pesquisa rápida no Google também revelou as seguintes opções:

  • Travessão médio: ALT –
  • Travessão longo: ALT SHIFT –

Ô, coisa linda! Tudo estaria resolvido se não fosse um problema:

 

Teclado numérico? Que teclado numérico?

 

Pois é, o notebook que eu uso para traduzir não tem um teclado numérico à direita das teclas principais, o que impossibilita o uso desses atalhos; e as combinações com a tecla ALT não funcionam com as teclas numéricas acima das letras. Uma possibilidade seria tentar utilizar alguns programas à parte, como a extensão Spell Bee para o Chrome. Essa extensão permite utilizar recursos de autocorreção no navegador, o que me permitira, por exemplo, digitar 2 hífens e eles seriam automaticamente substituídos por um travessão (uma solução parecida com a que uso no Word para trabalhar de maneira mais fluida).

Solução perfeita?

Seria… se funcionasse! ¯\_(ツ)_/¯

Embora o Spell Bee funcione normalmente na maioria dos websites, por algum motivo a extensão não funcionou dentro do ambiente do Smartcat. Talvez a situação fosse diferente se eu utilizasse uma CAT que funciona externamente (como o Trados SDL ou Wordfast), que teriam suas próprias ferramentas de autocorreção; entretanto, como o Smartcat é uma plataforma totalmente online, ela funciona dentro do navegador. Tentei também testar a extensão no Firefox, mas os resultados foram iguais.

Havia também a possibilidade de apelar para uma solução baseada em hardware…

 

Um tecladinho numérico auxiliar USB, que tal?

 

… mas isso resultaria em carregar mais uma peça junto com o notebook quando eu preciso trabalhar em algum lugar fora do home-office, além de esperar alguns dias até a chegada do produto se comprasse pelo Mercado Livre. E outra: ter um teclado numérico a parte somente para inserir travessões numa CAT Tool online não me parece uma solução muito racional.

Como o prazo do trabalho já estava correndo, foi preciso encontrar uma solução mais pé-no-chão mesmo. E o que resolvi fazer, neste caso, foi a gambiarra tipográfica que já citei acima: Digitar dois hífens seguidos “–” no lugar do travessão, e posteriormente usar o Word para substituir esses dois hífens por travessões de verdade.

E por que não usou a própria CAT Tool para trocar os hífens duplos por travessões?

Ah, eis a pergunta do leitor que está prestando bastante atenção ao contexto. As CAT Tools têm ferramentas de localização e substituição de caracteres e expressões, e elas funcionam muito bem, mas há uma ressalva: Todo segmento traduzido e confirmado que é alterado posteriormente precisa ser reconfirmado. Num texto com quase 6.200 segmentos e uma quantidade enorme de travessões, isso acabaria comendo um tempo precioso que poderia ser melhor aplicado tanto na tradução quanto no processo de releitura e ajustes que sempre faço antes de enviar o texto para o cliente

(Sim, eu sempre releio todo o texto antes de enviá-lo para o cliente).

Assim, optei por usar a função de Localizar & Substituir dentro do Word mesmo, depois que a tradução estava concluída.

Quanta trabalheira para fazer o negócio funcionar, hein? Mas as aventuras no universo das CAT Tools ainda não acabaram. Logo mais tem a parte 4 da série A CAT Tool e os Dragões, onde vamos ver o projeto finalmente engrenar e falar de algumas das facilidades e também de algumas mudanças nos hábitos de trabalho que ocorreram durante a execução dessa tradução.

Nos vemos no próximo estágio da jornada!

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